CRI, CRIAÇÃO, CRIANÇA, TEMPO
Por: Huna Pires*
Falar
sobre o tempo através da arte é ao mesmo tempo trabalhoso e lúdico.
Trabalhoso porque o assunto é muito extenso, com inúmeras
interpretações, e muitas formas de exemplificar a matéria. Lúdico,
porque, dependendo da maneira como é exposta a temática, pode
promover uma relação de inteira absorsão na conversa, tanto por
parte do espectador com os atores, ou mediadores do evento, no caso
os atores Benim Ortiz e seu colega Ricardo Fagundes no espetáculo
CRI- O HOEMEM E O TEMPO, que cumpriram muito bem a sua tarefa.
O
tempo, quer queira, quer não, permite a construção de todas as
coisas, sejam elas no plano da criatividade, do afeto, do ato de
aprender, da espiritualidade. E cada setor desse tem uma relação
muito própria com o tempo e estas, exigem daquele que disserta sobre
elas muito tato e sensibilidade para escolher os exemplos mais
didáticos, afim de que o publico possa comprende-las não só
utilizando a ferramenta intelectual, mas a sensorial, afetiva, e se
tiverem a abertura necessária, espiritual também e isso a equipe da
peça fez bem, utilizado cenas do cotidiano, a música, a dança
as expressões afetivas.
É
interessante observar, inicialmente, que o espetáculo já começa
num tempo que às vezes o publico não tem acesso: o aquecimento dos
atores. O aquecimento representa o inicio de uma crianção
(artística) e que muitas vezes não nos damos conta da existência
dessa preparação, os produtos frutos dessas criaçoes muitas vezes
já nos chegam prontos.
Um
bom exemplo que se encontra no enredo da peça é a silaba CRI. Pode
ser a onomatopéia que designa o som do Grilo- a imagem de tal
inseto me remeteu ao personagem do Conto Italiano Pinocchio, que
representa a importância e a presença do tempo no processo
evolutivo do boneco de madeira- como pode ser uma giria Cri-cri- ( um
sujeito chato, de conhecimento limitado) e mais surpreendente ainda:
Uma silaba, que com o passar do tempo, gerou outras palavras:
criação, criança, só para ficarmos no campo semântico da
temática do espetáculo.
Estamos
tão conectados com o tempo, embora nosso estilo de vida ocidental
não facilite muito essa percepção da conexão, que a escolha de um
autor oriental para mediar essa reflexão, o Indiano Kalil Gibran
foi muito interessante. E embora eu não conheça a obra do referido
autor, a experiencia com essas considerações expostas no
espetáculo foram bem pertinentes.
As
cenas cotidianas facilitam o contato com do publico com o tema,
porque, muitas vezes o espectador já teve alguma relação
adulto-criança, mesmo que não seja pai ou mãe de uma criança,
pode ser um médico, um professor, um tio, um irmão, um avô. Que
exemplo tão rico da expressão do tempo a possibilidade de
acompanhar o desenvolvimento humano de um bebê! Muitas vezes nos
pegamos surpreendidos com os argumentos das crianças em determinadas
situações- e então- nos damos conta de como o tempo passou.
A
música aparece através de ritmos totalmente diferentes: O Baião, o
Tango e a os temas Ritmicos Africanos. A duração de cada um- O
Tamgo mais lento que o Baião e os Ritmos africanos mais rápidos que
os dois anteriores, nos faz perceber auditivamentente e visualmente,
através da dança, a flexibilidade do tempo, para se expressar com
harmonia nos mais diferentes espaços, entre silencio e som. Também,
ainda que diminuta, encontramos a presença da poesia, no momento em
que Ricardo Fagundes recita um trecho da letra de “Wave”, do
Maestro Tom Jobim, frase por frase, as quais são permeadas pelas
frases melódicas correspondentes, mostrando a proeza do homem de
adestrar o som para a sua lingugem.
As
expressões afetivas, mostram o caminho que a forma de expressão do
amor vem evoluindo com o tempo- e graças a ele- ainda que em um
ritmo lento caminhamos para o momento em que a aceitação das
relações homoafetivas- não só destas- mas das diferenças humanas
se torne cada vez mais natural, isso depende do tempo também, que
colabora para o avanço do nosso desenvolvimento psicologico e
espiritual.
Caminhar com esses atores bem preparados fisica e vocal, e
emocionalmente e com a direção acertada de Mauricio de Assunção,
é uma oportunidade impar de refletir sobre nossa relação com o
tempo de forma intima e profunda. Obrigada meninos, pela
oportunidade, aos meus leitores, ,Fica a minha dica ai pra vocês.
*Huna
Pires é Graduada em Letras Vernáculas pela UCSAL, Escritora e com
Especialização em Psicopedagogia Clinica e Institucional pela
Faculdade São Bento da Bahia
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