terça-feira, 25 de abril de 2017

CRI, CRIAÇÃO, CRIANÇA, TEMPO
Por: Huna Pires*

Falar sobre o tempo através da arte é ao mesmo tempo trabalhoso e lúdico. Trabalhoso porque o assunto é muito extenso, com inúmeras interpretações, e muitas formas de exemplificar a matéria. Lúdico, porque, dependendo da maneira como é exposta a temática, pode promover uma relação de inteira absorsão na conversa, tanto por parte do espectador com os atores, ou mediadores do evento, no caso os atores Benim Ortiz e seu colega Ricardo Fagundes no espetáculo CRI- O HOEMEM E O TEMPO, que cumpriram muito bem a sua tarefa.
O tempo, quer queira, quer não, permite a construção de todas as coisas, sejam elas no plano da criatividade, do afeto, do ato de aprender, da espiritualidade. E cada setor desse tem uma relação muito própria com o tempo e estas, exigem daquele que disserta sobre elas muito tato e sensibilidade para escolher os exemplos mais didáticos, afim de que o publico possa comprende-las não só utilizando a ferramenta intelectual, mas a sensorial, afetiva, e se tiverem a abertura necessária, espiritual também e isso a equipe da peça fez bem, utilizado cenas do cotidiano, a música, a dança as expressões afetivas.
É interessante observar, inicialmente, que o espetáculo já começa num tempo que às vezes o publico não tem acesso: o aquecimento dos atores. O aquecimento representa o inicio de uma crianção (artística) e que muitas vezes não nos damos conta da existência dessa preparação, os produtos frutos dessas criaçoes muitas vezes já nos chegam prontos.
Um bom exemplo que se encontra no enredo da peça é a silaba CRI. Pode ser a onomatopéia que designa o som do Grilo- a imagem de tal inseto me remeteu ao personagem do Conto Italiano Pinocchio, que representa a importância e a presença do tempo no processo evolutivo do boneco de madeira- como pode ser uma giria Cri-cri- ( um sujeito chato, de conhecimento limitado) e mais surpreendente ainda: Uma silaba, que com o passar do tempo, gerou outras palavras: criação, criança, só para ficarmos no campo semântico da temática do espetáculo.
Estamos tão conectados com o tempo, embora nosso estilo de vida ocidental não facilite muito essa percepção da conexão, que a escolha de um autor oriental para mediar essa reflexão, o Indiano Kalil Gibran foi muito interessante. E embora eu não conheça a obra do referido autor, a experiencia com essas considerações expostas no espetáculo foram bem pertinentes.
As cenas cotidianas facilitam o contato com do publico com o tema, porque, muitas vezes o espectador já teve alguma relação adulto-criança, mesmo que não seja pai ou mãe de uma criança, pode ser um médico, um professor, um tio, um irmão, um avô. Que exemplo tão rico da expressão do tempo a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento humano de um bebê! Muitas vezes nos pegamos surpreendidos com os argumentos das crianças em determinadas situações- e então- nos damos conta de como o tempo passou.
A música aparece através de ritmos totalmente diferentes: O Baião, o Tango e a os temas Ritmicos Africanos. A duração de cada um- O Tamgo mais lento que o Baião e os Ritmos africanos mais rápidos que os dois anteriores, nos faz perceber auditivamentente e visualmente, através da dança, a flexibilidade do tempo, para se expressar com harmonia nos mais diferentes espaços, entre silencio e som. Também, ainda que diminuta, encontramos a presença da poesia, no momento em que Ricardo Fagundes recita um trecho da letra de “Wave”, do Maestro Tom Jobim, frase por frase, as quais são permeadas pelas frases melódicas correspondentes, mostrando a proeza do homem de adestrar o som para a sua lingugem.
As expressões afetivas, mostram o caminho que a forma de expressão do amor vem evoluindo com o tempo- e graças a ele- ainda que em um ritmo lento caminhamos para o momento em que a aceitação das relações homoafetivas- não só destas- mas das diferenças humanas se torne cada vez mais natural, isso depende do tempo também, que colabora para o avanço do nosso desenvolvimento psicologico e espiritual.
Caminhar com esses atores bem preparados fisica e vocal, e emocionalmente e com a direção acertada de Mauricio de Assunção, é uma oportunidade impar de refletir sobre nossa relação com o tempo de forma intima e profunda. Obrigada meninos, pela oportunidade, aos meus leitores, ,Fica a minha dica ai pra vocês.


*Huna Pires é Graduada em Letras Vernáculas pela UCSAL, Escritora e com Especialização em Psicopedagogia Clinica e Institucional pela Faculdade São Bento da Bahia

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